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Revista MAEL apresenta dossiê sobre a música e o teatro na obra de Machado de Assis em sua primeira edição de 2019

Público é convidado a descortinar as referências culturais e estéticas do escritor que, na visão do crítico David Jackson (Universidade de Yale), observou a vida como um grande espetáculo.

 

 

Abram as cortinas! A revista Machado de Assis em linha (MAEL) faz sua estreia em 2019: está disponível a primeira edição do ano, o vol. 12, n. 26, abr-ago/2019. O público do periódico tem acesso a um dossiê temático sobre a presença da música e do teatro na obra do autor, organizado por Juracy Assmann Saraiva (Universidade Feevale) e Marcelo Diego (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Entre diversos estudos atrativos, os leitores podem conferir um dos ensaios pioneiros sobre a educação musical de Machado de Assis, publicado na seção “Tradição crítica”. E mais: este número é composto por mais nove artigos originais, de autores nacionais e internacionais.

No editorial, Hélio de Seixas Guimarães (Universidade de São Paulo), Marta de Senna (Fundação Casa de Rui Barbosa) e Pedro Meira Monteiro (Princeton University, Estados Unidos) destacam o ensaio A caminho de Bayreuth: a música na obra de Machado de Assis, de Raymond S. Sayers – que observa a progressiva sofisticação das referências musicais do escritor na ficção machadiana. “Trata-se de um dos primeiros estudos de vulto a dar relevo ao tema e a abordá-lo de modo sistemático e rigoroso. Como o título sugere, o ensaio descreve um percurso – o da educação musical de Machado de Assis, cujo estágio final seria o diálogo com as composições de Richard Wagner”.

Nos demais artigos do dossiê predominam estudos que revelam as marcas da arte dramática na escrita de Machado de Assis, levando-o a compreender a vida humana como um espetáculo teatral ou operístico.

 

No primeiro ato, entram em cena elementos da obra de Machado de Assis

Espectador e crítico de teatro na corte do Segundo Reinado, Machado escreveu crônicas, folhetins, pareceres para censura, contos e romances. É o que enfoca Alessandra Vannucci, em Ó tempos! Ó saudades! Machado de Assis espectador de teatro. A articulista lembra que o escritor abandonou seu espaço como formador de opinião, decepcionado com os rumos de uma reforma da cena nacional, passando a escrever eventualmente. Conta, ainda, que ele abre uma exceção escrevendo uma série de resenhas sobre a primeira temporada brasileira da atriz italiana Adelaide Ristori, mundialmente consagrada como "rainha das cenas”. Assim, Vanucci relata como Machado transita entre os papeis de censor e espectador.

Quem quiser saber mais sobre os pareceres do autor para teatro, encontrará subsídios no artigo Os fundamentos filosóficos da crítica teatral de Machado de Assis. Nele, o pesquisador Alex Lara Martins (Instituto Federal do Norte de Minas Gerais) relata que o escritor estabelece critérios para julgar obras literárias e emitir pareceres para o Conservatório Dramático, apropriando-se de discursos relacionados à produção filosófica franco-brasileira em meados do século XIX.

Em seguida, há uma inversão de papeis: a peça teatral Lição de botânica é objeto de análise de pesquisadores de universidades dos Estados Unidos. Paul Dixon (Purdue University) descreve como o escritor se utiliza de metáforas sobre o progresso humano e a evolução das plantas para abordar aspectos culturais como cordialidade e jeitinho brasileiros. O articulista chama a atenção para essa rejeição formal em Machado e o sentido orgânico: esboço de perspectivas sobre Lição de Botânica. Já Anna-Lisa Halling (Brigham Young University) compara a peça do brasileiro a Taming of the Shrew, de Shakespeare. Em seu artigo De megera a feminista: a Lição de Botânica de Machado de Assis, Halling afirma que o “Bruxo do Cosme Velho” fortalece os ideais feministas, criando personagens femininas fortes, inteligentes e independentes.

A intertextualidade também é um aspecto explorado por Juracy Assmann Saraiva (Universidade Feevale), em Memorial de Aires: entre dramas e acordes, a inflexão para a literatura. A pesquisadora correlaciona a produção do romance às experiências estéticas do autor, principalmente à ópera Tristão e Isolda, de Richard Wagner.

O dossiê se encerra com Machado musical: notas sobre música e escrita. Sob a batuta do ensaísta convidado David Jackson, o público da MAEL se sintoniza com os ecos da música e da ópera na obra do escritor brasileiro. Jackson conclui que, seguindo a tradição barroca, o mundo é um grande palco na ficção machadiana.

 

Revisitando manuscritos, “A Divina Comédia” e o tema da melancolia

Esaú e Jacob e Memorial de Ayres: manuscritos que viajam, de Ana Cláudia Suriani da Silva (University College London) abre a seção "Vária". Neste trabalho, ela descreve minuciosamente fólios dos dois últimos romances de Machado de Assis, guardados na Academia Brasileira de Letras (ABL). A pesquisa resulta num vasto testemunho da cadeia cronológica de documentos, abrangendo desde os planos iniciais de trabalho ao texto concreto do escritor.

A revista também traz valiosas contribuições de Minas Gerais. Em Machado de Assis e A divina comédia, Teresinha Vânia Zimbrão da Silva e Izabella Maddaleno (Universidade Federal de Juiz de Fora) garimpam referências ao texto de Dante na obra de Machado, acrescentando detalhes e retificando informações que escaparam a outros estudiosos do assunto. Já Luciana Brandão Leal (Universidade Federal de Viçosa) e Alexandre Veloso Abreu (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais), revisitam o tema melancolia em O legado de Brás Cubas: o príncipe melancólico.

Falando em patrimônio, a transferência do espólio machadiano para a ABL é tema das "Páginas recolhidas". Flávia Barretto Corrêa Catita e Luciana Antonini constituem um inventário do que ficou perdido no processo de institucionalização do legado machadiano, a partir de cartas manuscritas de Mário de Alencar a José Veríssimo.

Fechando a edição, duas resenhas: Machado de Assis – Antes do livro, o jornal: suporte, mídia e ficção, de Lúcia Granja (2018), escrita por Thiago Mio Salla, e Epígrafes e diálogos na poesia de Machado de Assis, de Audrey Ludmilla do Nascimento Miasso (2017), apreciado por Maria Cristina Cardoso Ribas.

Acesse já, gratuitamente, a revista Machado de Assis em linha e descubra esses e outros estudos sobre o autor.

 

Sobre a revista

Machado de Assis em linha (MAEL) é um periódico acadêmico dedicado à obra de Machado de Assis em seus múltiplos aspectos. A revista é publicada em meio eletrônico a cada quatro meses (abril, agosto e dezembro), disseminando estudos que ampliam o conhecimento dos leitores sobre o trabalho do autor brasileiro. Reconhecido pelo público e pela crítica no Brasil e no mundo por sua escrita potente sobre o século XIX, Machado de Assis é um autor que continua a dialogar com temas da atualidade e em diversas áreas do conhecimento.

Publicada há 10 anos, a revista Machado de Assis em linha conta com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB).