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"Da tradição crítica": revista MAEL resgata ensaio pioneiro, de Raymond S. Sayers, sobre a educação musical de Machado de Assis

 

Há 51 anos, a Revista Hispánica Moderna publicava o ensaio A caminho de Bayreuth: a música na obra de Machado de Assis, de Raymond S. Sayers, que descreve o percurso da educação musical de Machado de Assis, cujo estágio final seria o diálogo com as composições de Richard Wagner. Publicado inicialmente como um capítulo dos Onze estudos de literatura brasileira, o ensaio é agora reapresentado na revista Machado de Assis em linha - MAEL (vol. 12, n. 26, abr-ago/2019), que traz um dossiê temático sobre a presença da música e do teatro na obra do autor.

 

 

Publicado na seção "Da tradição crítica", o ensaio é apresentado pelo editor Marcelo Diego (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Ele lembra que Sayers é um pioneiro no campo dos estudos literários brasileiros nos EUA e contribuiu ativamente para difundir a cultura nacional naquele país. Destaca, ainda, que outros críticos já tinham observado o papel da música na obra do escritor, “(...) porém sempre de maneira incidental, tratando-a como elemento coadjuvante, e não como objeto central da análise; Sayers foi o primeiro a dar relevo próprio ao tema e a abordá-lo de modo sistemático e rigoroso”.

Antes de se aprofundar no diálogo entre o romance de Machado de Assis e a ópera de Richard Wagner, Sayers mapeia a paisagem sonora do autor, de seus narradores e personagens. “Generoso, o ensaísta apresenta as formas, os gêneros, os autores, os repertórios com os quais o escritor se foi familiarizando (e os quais foi incorporando à sua escrita) paulatinamente, ao longo do tempo, permitindo assim que também o leitor leigo no assunto se familiarize com eles. Isso porque as análises de Sayers, não obstante o caráter eminentemente literário, são alicerçadas em sólida cultura musical, o que permite ao ensaísta, por exemplo, apontar erros cometidos pelo escritor, quando este se refere equivocadamente a determinadas formas musicais”, escreve Diego na seção da revista MAEL.

Embora dedique maior espaço à música erudita na vida e na obra de Machado de Assis, o ensaísta também contempla a presença da música popular (polcas, pregões, canções de lavadeiras, cantigas, cantilenas, cantares d'África etc.), aponta o editor.

Outro aspecto para o qual chama a atenção é que, apesar de Machado de Assis ser “um amador inteligente que nada sabia da teoria ou composição e pouco das formas da música”, Sayers observa de forma acurada a progressiva sofisticação das referências musicais do escritor na ficção. Assim, o ensaísta conduz os leitores por um percurso que vai de uma utilização simples da música no contexto da época até a busca por “elementos ou formas musicais para a construção dos contos e romances, chegando no fim da carreira a lançar mão de todos os recursos musicais que possuía para escrever Memorial de Aires”.

 

Leia o ensaio A caminho de Bayreuth: a música na obra de Machado de Assis na seção “Da tradição crítica” (revista Machado de Assis em linha, vol. 12, n. 26, abr-ago/2019).