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Machado de Assis e o teatro: crítica fundamentada pela filosofia

 

Já na juventude, Machado de Assis era leitor de poesia e, como jornalista, opinava sobre as grandes questões do país.  Apropriando-se de discursos de intelectuais franceses e de conceitos da filosofia eclética, o autor busca estabelecer critérios para julgar obras literárias e emitir pareceres para teatro no Conservatório Dramático. Este é o tema do artigo Os fundamentos filosóficos da crítica teatral de Machado de Assis, de Alex Lara Martins (Instituto Federal do Norte de Minas Gerais), publicado na revista Machado de Assis em linha - MAEL (vol. 12, n. 26, abr-ago/2019).

 

 

O estudo rastreia os fundamentos filosóficos que compõem essa maneira de julgar e de fazer literatura. Para isso, Lara Martins cruza informações entre a produção filosófica brasileira e o modo como o autor recebe e redireciona esses discursos para escrever críticas sobre teatro. O pesquisador revisita o contexto histórico de meados do século XIX, lembrando que: “Os intelectuais brasileiros se defrontaram com questões de ordem política, estética, religiosa e filosófica. Liberta de Portugal, a ex-colônia teve de se preocupar com o modelo monárquico de governança e com a construção de um conjunto de costumes e crenças que a distinguiam enquanto sociedade”.

Era, portanto, necessário expressar “o que é ser brasileiro” e dar origem a uma nova literatura, com temas e gêneros textuais adequados ao perfil nacional. Segundo o pesquisador, para superar critérios estéticos de românticos e de naturalistas, Machado de Assis buscou amparo teórico em dois articulistas da influente revista Revue des Deux Mondes: Gustave Planche e Émile Montégut.

O estudo revela que o trabalho de Machado como crítico, permitiu que ele acompanhasse de perto as inovações do drama realista brasileiro –  trazido à cena pelo Teatro Ginásio Dramático, a partir de 1855, com peças de Dumas Filho, Émile Augier e Octave Feuillet. As obras destes autores debatiam questões relacionadas à nova sociedade burguesa e se diferenciavam de dramas românticos, tragédias neoclássicas e melodramas de sucesso. Percebendo “o delicado equilíbrio entre ordem e anarquia, poder e autonomia, moralismo e liberdade”, Machado de Assis busca contribuir para um "Conservatório ilustrado" e, desde cedo, assume um papel como teórico do teatro brasileiro.

Em seu artigo, Lara Martins mostra que o escritor refletia sobre os objetivos do teatro, atento ao que era discutido pelos teóricos franceses –  que defendiam, principalmente, a verdade, a beleza e a bondade, os pilares da filosofia cousiniana.

As minhas opiniões sobre o teatro são ecléticas em absoluto. Não subscrevo, em sua totalidade, as máximas da escola realista, nem aceito, em toda a sua plenitude, a escola das abstrações românticas; admito e aplaudo o drama como a forma absoluta do teatro, mas nem por isso condeno as cenas admiráveis de Corneille e Racine. Tiro de cada coisa uma parte, e faço o meu ideal de arte, que abraço e que defendo.

Entendo que o belo pode existir mais revelado em uma forma menos imperfeita, mas não é exclusivo de uma só forma dramática. Encontro-o no verso valente da tragédia, como na frase ligeira e fácil com que a comédia nos fala ao espírito.

Com estas máximas em mão - entro no teatro. (ASSIS, 2015g, p. 1020, grifo nosso).

O estudo publicado pela revista MAEL aborda, ainda, questões como a construção das narrativas machadianas a partir de dilemas filosóficos, e as críticas às suas primeiras peças. Para saber mais, acesse aqui o artigo completo.

 

Saiba mais sobre o número 26

A revista Machado de Assis em linha - MAEL (vol. 12, n. 26, abr-ago/2019) traz o dossiê “Machado, o teatro, a música e o teatro musical”, com artigos que tratam da formação do escritor como espectador de teatro, exploram os fundamentos filosóficos da sua crítica teatral, discutem sua peça Lição de botânica e investigam a presença da música na ficção machadiana. A seção “Vária” inclui artigos sobre os manuscritos dos dois últimos romances do autor, o caráter melancólico da personagem Brás Cubas e o diálogo do escritor brasileiro com a Divina comédia. Completam o número a publicação de três cartas de Mário de Alencar a José Veríssimo e resenhas de dois livros da crítica machadiana recentemente publicados.