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Lição de botânica: uma obra fértil em metáforas

A obra de Machado de Assis é fértil no uso de metáforas. Muitas vezes, esta figura de linguagem pode explicar um trabalho inteiro do autor. É o caso de sua peça teatral Lição de botânicaque o pesquisador Paul Dixon (Purdue University, EUA) analisa na edição atual da revista Machado de Assis em linha – MAEL.

 

Créditos da imagem: Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindilin
 

Em Machado e o sentido orgânico: esboço de perspectivas sobre Lição de Botânica, Dixon descreve como Machado de Assis se utiliza de metáforas sobre o progresso humano e a evolução das plantas para abordar aspectos culturais como cordialidade e jeitinho brasileiros.

A fim de mostrar como Machado de Assis rejeita a rigidez formal em favor de uma elasticidade orgânica, Dixon divide seu ensaio em quatro partes: Amor vegetal, Sementes da comédia, Orgânico vs. Mecânico e Elasticidade e nacionalidade.

“(...) Tentarei mostrar que, com essa figura poética, Machado não apenas comunica uma história envolvente de superação de obstáculos românticos, como também se vincula a uma tradição de pensar no afeto ‘vegetativo’ que remonta ao século XVII. Além disso, ele parece intuir as qualidades que estão no coração da tradição cômica no drama. Vou sugerir que os valores da peça concordam com uma das mais importantes declarações filosóficas sobre o humor (e, de fato, sobre a vitalidade humana em geral): o Riso de Henri Bergson. E, finalmente, tentarei demonstrar que a peça responde e exemplifica as idéias de Machado sobre literatura e nacionalidade, delineadas no ensaio ‘Instinto de nacionalidade’ (ASSIS, 1985b)”.

Opostos que se atraem  

Partindo da trama da peça – que levanta questões como a incongruência entre “ciência e casamento”, Dixon lembra que Lição de botânica é, como outros textos de Machado de Assis, um estudo em personagens ou atitudes contrastantes.

De um lado, há o Barão Sigismundo, um cientista sueco treinado para mostrar seus conhecimentos, que é rígido, formal, incapaz de adaptar sua linguagem e que deseja impedir o relacionamento de um jovem casal. Do outro, estão mulheres brasileiras, que convivem na mesma vizinhança, e demonstram uma capacidade natural para agir frente aos desafios da vida. Enquanto o Barão representa pensamentos e ações mecânicas, as mulheres do bairro revelam um conhecimento superior e intuitivo das leis da natureza e acabam dando a “lição de botânica”’ no próprio médico.  

Neste sentido, Dixon aponta para o perfil de Helena – a personagem central da história que tenta unir o jovem casal, fingindo fascínio por plantas para que o professor desvie seu foco dos namorados. A protagonista busca resolver problemas de forma indireta, flexibilizando regras usuais. O pesquisador exemplifica: “Quando [Helena] se depara com o obstáculo à felicidade de Cecília com Enrique, seu primeiro impulso é conhecer o outro: ‘Reconciliemo-nos com o barão’ (ASSIS, 1985c, p. 1.176)”. Ou seja, confiando no poder de um relacionamento cordial, Helena representa uma espécie de “brasileira ideal”, acredita Dixon.  

Para encerrar o ensaio, ele lembra que a peça sofre uma reviravolta: o “aparente” interesse de Helena por botânica faz com que o professor acabe se apaixonando por ela. “Se ele agora deseja ser um homem casado, o cientista dificilmente pode continuar a proibir seu sobrinho de perseguir o mesmo estado”. Ou seja: a principal personagem feminina resolve o problema central da peça de uma maneira indireta e oblíqua.  

Ao concluir o ensaio Dixon afirma que Machado de Assis ao utilizar de elementos como a metáfora, recuperando antigas tradições da comédia, e mostrando que a rigidez dogmática leva à exclusão.   Leia o ensaio na íntegra: Machado e o sentido orgânico: esboço de perspectivas sobre Lição de Botânica   Acesse a revista MAEL (vol. 12, n. 26, abr-ago/2019)