Editorial

 

Neste ano em que a Machado de Assis em linha completa 10 anos (o primeiro número saiu em junho de 2008), nada mais oportuno do que refletir sobre as relações entre “Machado de Assis e a História”.

Esse é o título do dossiê temático organizado por Leonardo Affonso de Miranda Pereira, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, e Sidney Chalhoub, da Universidade Estadual de Campinas e da Harvard University, a quem agradecemos.

Os seis artigos que compõem o dossiê mostram o crescente interesse pela relação entre a produção do escritor em diferentes gêneros e os desafios próprios “do seu tempo e do seu país”.

Distantes da tendência de ver as obras literárias como janelas diretas para o passado, que marcou por vezes a aproximação dos historiadores com a literatura, tais artigos atentam para a dimensão propriamente literária dos escritos de Machado de Assis – de modo a compreender como se articulam, na obra, questões estéticas, sociais e políticas.

É o que fazem Ana Flavia Cernic Ramos, Maria Luzia Alves Brito e Benito Petraglia, ao mostrarem como as crônicas escritas por Machado de Assis em diferentes momentos estabeleciam um diálogo com teorias, discussões e questões caras ao período – como as teorias raciais e o debate sobre imigração, analisados no artigo “Das batalhas literárias e sociais surge o “método”: trabalho, escravidão e imigração nas crônicas de Machado de Assis (1878-1883)”; o debate sobre os papéis de gênero, presente no artigo “O casamento republicano na crônica de Machado de Assis”; e os desafios da nova ordem política republicana, tratados no artigo “Machado de Assis e a História: o processo eleitoral na crônica machadiana”. Renata Figueiredo Moraes, em “O ‘dia delírio’ de Machado de Assis e as festas da Abolição”, resgata os vários modos de participação de Machado no processo que resultou naquele evento, tomando como base registros nos jornais da época e textos de autoria do escritor.

Sem se restringir às crônicas, este diálogo com os dilemas do tempo se expressa ainda em outros gêneros da produção de Machado de Assis – por exemplo em seus contos, analisados por Daniele Megid no artigo “De Botafogo à Tijuca: sobrevivência e autonomia feminina nas Várias Histórias de Machado de Assis”; e também em sua produção como tradutor e teatrólogo, objeto do artigo “Cá está a criadinha: uma análise da imitação Hoje avental, amanhã luva de Machado de Assis”, de Rodrigo Camargo de Godoi.

A edição conta ainda com dois outros artigos: o de Cid Ottoni Bylaardt, que investiga, a partir de ideias de Maurice Blanchot, como a impossibilidade do defunto-narrador Brás Cubas se torna possível na ficção, e o da jovem pesquisadora Rilane Teles de Souza, que apresenta um levantamento e um estudo detalhado dos tipos de versos empregados por Machado em seus três primeiros livros de poemas e o que conservou deles quando da publicação das Poesias completas, volume de 1901 em que reuniu seus poemas.

Na seção “Da tradição crítica”, a MAEL homenageia desta vez o crítico e biógrafo Edgard Cavalheiro, com a publicação do artigo “Machado de Assis e o teatro”. Nesse texto de 1939, escrito durante as comemorações dos cem anos do nascimento do escritor, Cavalheiro reflete sobre o porquê do distanciamento precoce de Machado do teatro, ao qual havia se dedicado tão intensamente na década de 1860. Os editores agradecem a Maria Helena Cavalheiro, filha de Edgard, a autorização para publicar o ensaio.

Desejamos boas leituras e boas reflexões a todos.

 

Uma nota triste:  queremos registrar o falecimento, em março, do nosso querido Victor Heringer (1988-2018), que foi assistente editorial da MAEL em 2011/2012. Por absurda e fora de hora, sua morte nos deixa ainda em estado de perplexidade. Victor era um rapaz brilhante, belíssimo, de rara sensibilidade. Escritor talentoso, deixa dois romances, Glória e O amor dos homens avulsos. E deixa também, em quem conviveu com ele, uma dor imensa.

 

 

 

Hélio de Seixas Guimarães, Editor

Universidade de São Paulo

São Paulo, São Paulo, Brasil

 

Marta de Senna, Editora Sênior

Fundação Casa de Rui Barbosa

Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

 

Pedro Meira Monteiro, Editor Associado Internacional

Princeton University

Princeton, New Jersey, Estados Unidos

 

Abril de 2018

                                                                                                         

                                           



    

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